• Nascer Amor

Relato de Parto: Ale Friese Conradt



A trajetória da Nina Rosa (minha filha) começou muito antes de ela ser planejada. Em 2014 tive duas grandes perdas. Meu pai veio a falecer em um momento muito delicado de nossa vida familiar. Minha mãe estava com câncer estagio 4 (terminal) no fígado e muito debilitada. Então quando ele se foi, perdemos nosso chão e nosso esteio. Minha vida desde aquele dia mudou radicalmente. Cuidei de minha mãe nos próximos 3 meses, até que enfim, ela se foi e parou de sofrer. Vivendo uma realidade triste e vendo alguém que eu amava muito sofrendo, decidi que após aquele calvário eu queria engravidar!

Estava cansada de doença, de morte, de tristeza. Eu queria...precisava de vida!! Uma vida nova, um nascimento e toda a alegria que uma vida nova pode acarretar. E assim, 3 semanas após a morte de minha mãe, eu e meu marido decidimos que queríamos um bebe. Eu sou daquelas que acredito que nada é por acaso e que tudo tem seu tempo certo.

E na primeira tentativa, eu engravidei!

Com a gravidez descoberta veio algo novo, de novo! Veio primeiro um medo gigante de perder mais um ser que eu estimava. Por isso anunciei apenas a minha gravidez com 10 semanas de gestação (não aguentei esperar até 12 semanas...rsrsrs) e depois, comecei a enxergar a vida com os olhos daquele ser, que batia o coração freneticamente dentro de mim. A primeira coisa que pesquisei na gestação foi o tipo de parto. Como sempre gostei de cirurgia, coloquei no YouTube todos os tipos de parto que conhecia...parto normal e parto cesária.

Vi o primeiro vídeo de parto normal, tradicional, mulher deitada de pernas abertas, médico fazendo muitos toques na vagina da mulher, médico puxando o bebe...aquilo não me convenceu. Faltava algo. Meu olho não brilhou.

No próximo, achei uma cesária feita no hospital Santa Catarina, filmada pelo pai. Hora marcada, mulher ansiosa, amarrada em uma mesa, pai olhando atrás de um pano. Quando o bebê nasceu, escuto alguém da equipe falar "já fez cocô, é um cagãozinho!" (Confesso que fiquei muito chateada com essa fala), mostraram o bebê por cima do pano e levaram embora...porque afinal ele estava "cagado". A mulher olhou para o pai, o pai foi atrás do bebê, e aí eu vi uma das cenas mais tristes de minha vida: Vi o bebê chorando muito, sendo limpo (leia-se esfregado) com um pano, colocado em uma mesa gelada e lá sendo aplicado "canos/mangueirinha/ fio" (me faltam palavras para explicar o que era aquilo) naquele bebe. Na boca do bebê, no nariz do bebê. Não consegui assistir até o final. Comecei a chorar naquele momento. E uma decisão ali foi tomada: Eu com apenas 8 semanas de gestação, não vou deixar fazerem isso com o meu filho!!!

E assim foi dada a largada de muita pesquisa e muito estudo! Hoje sei que naquele momento tomei um caminho que não tem mais volta...o da humanização do parto! Primeira decisão a ser tomada...queria uma DOULA!

Ao falar isso na minha primeira consulta de pré-natal...a médica me olhou e disse: NÃO INVENTA ESSA MODA DE DOULA! Sai do consultório e nunca mais voltei! Com isso, conversei com uma amiga que teve parto domiciliar...e ela me indicou uma médica que era humanizada. E assim marquei consulta com a linda Dra. Martha Colvara Bachilli. Lá seguimos com uma gestação tranquila, poucos ultrassons e muito peso adquirido. E numa dessas consultas, perguntei para ela como acharia doulas em Blumenau...e ela me passou uma lista com várias! Mais fiz entrevista com 2. E parei ali! Impossível não querer todas do seu lado, de tão maravilhosa que são essas mulheres!!!

Mais mesmo com todo o estudo, eu não entendi direito o que era uma doula. E quando a Janine (doula escolhida) começou a me dar livros preciosos para ler, me empoderar sobre a capacidade do meu corpo e me tratar com tanto carinho e empatia...o medo era coadjuvante. Para fechar com chave de ouro, fiz o curso de gestantes da Gabriela Muller...e lá a força interior do "EU SEI O QUE EU QUERO" "EU SOU CAPAZ" "MEU CORPO É INTELIGENTE" me fez perder de vez o medo da dor.

Tinha medo de cesária necessária, não aceitava de forma alguma qualquer intervenção e não romantizei como, onde e de que posição seria o meu parto. Deixei me levar...sem ansiedade e com a certeza que tudo daria certo! E no dia 8/9/2015 eu entrei na 37º semana. Doula Janine veio fazer sua última consulta antes do parto...e lá avisei...não vai demorar. Eu sabia, sentia que a minha Nina não chegaria a data prevista. No dia 9/9/2015 tive consulta com a Dra. Martha e aproveitei e visitei a maternidade. Naquele momento que eu fui não tinha nenhum parto acontecendo...e algumas enfermeiras falaram...que se eu quisesse poderia parir naquele dia, que poderia escolher onde eu queria. Rimos, fui feliz para casa da minha cunhada, conversamos sobre partos...e aí sim fui para casa descansar. Estava serena.

Dia 10/09 acordei, abri a janela e pensei...hoje será um dia lindo!!! Fui no banheiro e lá senti um "plac" e a bolsa estourou as 7 horas da manhã. Meu marido se desesperou, ficou nervoso... e eu com uma calma e um empoderamento que não sei de onde veio o acalmei, liguei para a doula, tirei minhas dúvidas sobre bolsa rota e segui a vida "normal". Digo normal entre aspas, porque a felicidade era tão grande que não cabia dentro de mim! Não era um dia normal! Chegou o dia tão esperado, planejado e estudado! Eu ia parir!!!

Apenas às 12 hs começaram as minhas contrações...a cada meia hora...super leves...cólicas suaves. Às 15 hs elas começaram a ficar de 15 em 15 minutos, indo para 10 em 10 minutos. Nisso decidi tirar um cochilo. O dia ia ser longo. As 17 hs achei que o negócio estava muito parado. Cadê a dor de quase morte???? A dor que todos temem??? E fui caminhar... às 18 hs, fui procurar a minha carteira e não encontrava...tinha deixado no estacionamento do hospital que visitei no dia anterior. Lá meu marido saiu correndo atrás da carteira...e as contrações começaram a se ritmar...a caminhada tinha feito efeito!

Ás 19 hs eu estava com contrações um pouco mais forte de 5 em 5 minutos. Fiquei um pouco nervosa. Chamei a doula. Diogo (marido) não chegava... 20 hs chegou o marido, com comida... mais não conseguia comer direito... 20:30 hs chegou a fotografa... 21 hs chegou a doula. Nessa hora as contrações eram fortes e tinham 3 minutos de intervalo. E aí começou a minha partolândia, o carinho da doula, o olhar atento do Diogo... a conexão comigo mesma... quando eram 23:30 hs a Dra. Martha perguntou se eu queria tomar antibióticos, já que à 1 hora da manhã eu ia fazer 18 horas de bolsa rota...e ali eu tive a primeira sensação de empoderamento materno... eu não queria antibióticos, meu líquido estava claro, eu sentia a Nina mexer e mesmo que eu não tinha feito os exames (não deu tempo) eu sabia que não tinha nenhuma doença ginecológica. E após uma contração muito forte e demorada à 00:10 hs, eu decidi ir para o Hospital.

Quando dei entrada no hospital, a dra. Martha fez exame de toque, estava com 7 cm de dilatação. E então eu "desliguei", mergulhei no tão estudado estado alfa e entrei de cabeça na partolândia...onde eu só despertei às 4 hs da manhã. A essa hora eu estava uma mulher primitiva e selvagem...a dor era intensa, não cessava.

Achava que ia morrer...pedi cesariana...queria acabar com aquilo, JÁ! Veio a Doula e me lembrou dos meus porquês, que eu era capaz, me olhava nos olhos, seguravam a minha mão...eu estava acolhida! Eu gritava "TEM UM T NO MEU QUADRIL" era a Nina gigante, descendo...e todas as vezes que eu pensava em desistir...vinha a Dra. Martha e falava...a Nina quer vir...força Ale...e como achar uma posição era impossível, decidi ir no chuveiro. Quando cheguei no chuveiro, o Diogo jogava água quente nas minhas costas, eu estava cansada, não tinha comido nada até então porque eu não quis. Veio a Janine e me trouxe água com açúcar...tudo para não introduzirem nada intravenoso...como eu queria...me sentia muito respeitada.

E de repente a vontade de fazer força chegou, uma força que até hoje não sei de onde veio...mais veio...nosso corpo é fantástico... trouxeram o banquinho de parto, e lá eu vocalizava e era apoiada pela médica para continuar vocalizando, que estava lindo...

Quando a Dra. Martha avisou que estava vindo a cabeça...disse para o Diogo olhar e ele disse a coisa mais linda que ouvi em toda a minha vida: "Me deixa aqui do seu lado, tem muita energia aqui, não quero perder/sair disso”.

Saiu a cabeça, todos comemoram... e eu digo: “Achei que tinha acabado”. Expulsivo é isso: intenso, dolorido, um portal! Eu queria que acabasse...esqueci que não devemos fazer força quando não tem contração, para não lacerar o períneo...mais eu queria que acabasse, queria ver a minha filha!

Mais uma contração e a Nina estava nos meu braços, não chorou e ali, naquele momento eu disse baixinho “conseguimos!”. Fomos para o quarto juntas, pai cortou o cordão após parar de pulsar, amamentei na primeira hora, nasceu a placenta. Eu estava exausta e feliz!

Foi o melhor dia da minha vida! Morreu a Alessandra filha, nasceu a Alessandra MÃE. Eu nunca mais seria a mesma! Deixo aqui minha eterna gratidão para a linda Martha (obstetra), Janine (doula), Diogo (marido), Tainá (fotografa)...eles formaram uma equipe tão perfeita e sincronizada...que parecia uma ópera! Melhor equipe eu não poderia ter!

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